O que foi o Império  Bizantino?

 

Talvez você se lembre da época de escola, talvez você ainda esteja na escola, no Sexto Ano do Fundamental ou no Primeiro Ano do Médio, o professor de História dando uma aula sobre o Código de Justiniano, o Cisma do Oriente ou da Conquista de Constantinopla pelos otomanos. A última teria fechado as rotas comerciais do Oriente e forçado os europeus a buscar novas rotas. A consequência disso teria sido a Descoberta da América.

Mesmo que você seja (ou tenha sido) um estudante dedicado, o conhecimento que você recebeu na escola sobre o Império Bizantino ou Bizâncio nunca forma uma unidade coerente.

 

Bizâncio é mencionado quando, de alguma forma, ele influencia a narrativa coerentemente construída pelo currículo escolar. Se você estudou História na faculdade, dependendo do seu professor, talvez você tenha ido um pouco mais a fundo no assunto, mas o cenário não muda muito. O Império Bizantino não é o centro das atenções.

 

Nesse site ele é. Contudo, o que foi exatamente o Império Bizantino? Embora minha intenção nas minhas postagens seja mostrar isso, percebi que faço isso de forma recortada, mostrando aspectos particulares. Acho que falta uma introdução.

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Imagem de Maome II entrando em Constantinopla. Pintura por Fausto Zonaro (1854–1929) (Fonte: Wikicommons)

A "inexistência" do Império Bizantino

Começo dizendo que nunca houve um Império Bizantino. Para ser mais claro, nunca houve na História um reino ou império que se nomeou dessa forma. Da mesma forma, nunca houve um povo que se chamou de “bizantino”.

O que chamamos de “Império Bizantino” era a continuidade medieval do Império Romano e aqueles que chamamos de “bizantinos” se nomeavam invariavelmente de “romanos”. Isso quer dizer que até 1453, isto é, 39 anos antes da chegada de Colombo nas Américas e 47 anos antes da chegada de Cabral em Porto Seguro, havia um Império Romano. Isso pode soar estranho aos ouvidos, mas ao mesmo tempo intrigante.

Nós associamos o Império Romano à Antiguidade e o fim desse período a hordas bárbaras tomando Roma e jogando a Europa nas supostas escuridões da Idade Média. Embora essa imagem seja uma simplificação de processos históricos complexos ocorridos num período conhecido hoje como tardo-antigo (que corresponde mais ou menos o período entre os séculos III e VIII), o Império Romano continuou existindo em sua metade Oriental com sua capital em Constantinopla (atual metrópole turca de Istambul) por mais de um milênio.

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O distrito de Galata com a torre que lhe dá o nome visto desde o Palácio de Topkapi em Istambul (arquivo pessoal)

Não era, contudo, o mesmo Império Romano da época de César e Augusto. O Latim tornou-se a partir do século VII d.C uma língua estrangeira. Os romanos medievais falavam em sua maioria o Grego. Isso não os fazia menos romanos, pois o Grego já era desde antes da conquista romana a língua franca do Mediterrâneo Oriental e isso não mudou quando essa região é anexada ao Império Romano. O Latim torna-se presente nessas regiões, mas como o idioma dos dominadores e da administração.

Diferentemente do Império Romano da Antiguidade, que era pagão e politeísta, o Império Romano medieval era cristão. Surgido como um culto judaico divergente focado numa figura messiânica apocalíptica que morreu crucificado, o Cristianismo teve um crescimento gradativo, mas constante, e sofreu mudanças: ele se divorciou do Judaísmo e passou por algumas perseguições. Finalmente é adotado pelos imperadores romanos: primeiro Constantino I (306-337), que ao mesmo tempo continuou favorecendo o paganismo, e depois por seus sucessores, que fizeram da “nova” religião a religião oficial do Império.

O Cristianismo em sua versão bizantina, ou ortodoxa (que em grego significa “a opinião correta”), é o que as pessoas mais associam com o Império Bizantino. A sua Igreja é de fato uma instituição formada durante o período medieval que sobreviveu o fim do Império.

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Isso é fortíssimo na consciência histórica dos cristãos ortodoxos, que se apropriam de símbolos e títulos bizantinos até hoje: a principal autoridade ortodoxa se chama de Patriarca Ecumênico de Constantinopla e a Igreja Ortodoxa Grega tem como símbolo a águia bicéfala, considerada um símbolo quase heráldico da última dinastia imperial bizantina: os Paleólogos.

Monastério no Monte Atos com bandeira com águia bicéfala (fonte: athosweblog.com)

Como os romanos foram transformados em bizantinos?

Mas porque chamamos esses romanos de “bizantinos”. A origem do termo é o nome antigo de Constantinopla antes de ser transformada em nova capital imperial romana: Bizâncio. Contudo, a denominação “bizantino” e o nome antigo da cidade “Bizâncio” eram raramente usados pelos próprios bizantinos e tinham um tom antiquário e elitista. É como chamar hoje em dia Portugal de “Lusitânia” ou a França de “Gália”. Porém, o termo “bizantino” colou depois de um longo processo de “desromanização” dos bizantinos que se iniciou na Idade Média.

Inicialmente, não havia contestação de que os bizantinos eram romanos, mas no século IX iniciou-se um resgate da identidade romana no Ocidente. Os papas decidiram recriar o título imperial romano, desparecido no ocidente desde 476, mas de uma forma reformada: a eleição de um imperador romano passou a ser um monopólio do papa.  Isso era baseado numa fake news chamada de Donatio Constantini, ou “Doação de Constantino”, segundo a qual o imperador Constantino I teria sido curado da lepra pelo papa Silvestre e como agradecimento, o imperador teria transferido a autoridade imperial romana ao papa. Baseado nesse documento falsificado, os papas passaram a coroar reis francos e germânicos como “imperador dos romanos” a partir do ano 800, a começar com Carlos Magno.

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"Doação de Constantino", pintura da oficina de Rafael, 1520-1524 (Fonte: Wikicommons)

Naturalmente a existência de imperadores romanos sendo coroados continuadamente desde a Antiguidade e todo um povo que se chamava de romanos no Oriente era um incômodo para o Papado e suas pretensões imperiais. Rapidamente, os romanos foram transformados em graeci, gregos, devido ao idioma que falavam.

 

Ademais, havia um preconceito herdado dos romanos com relação aos gregos, segundo o qual eles seriam depravados e desleais. Essa marca foi colada aos bizantinos. Por fim, uma série de controvérsias entre as Igrejas de Roma e Constantinopla sobre questões litúrgicas e teológicas gradativamente resultou na separação de ambas as igrejas.

Posteriormente, segundo o bizantinista Anthony Kaldellis, devido ao cenário geopolítico do século XIX, o Império Romano medieval deixou de ser chamado de “Império dos Gregos” e passa a ser chamado de “Império Bizantino” ou “Bizâncio”.

 

Os bizantinos, para melhor dizer, os romanos reagiram e nunca abriram mão de seu legado e sua identidade romana. Mesmo nos últimos anos do Império, quando ele estava basicamente limitado à Grécia e é observado o surgimento de um forte helenismom com eruditos bizantinos se entendendo também como “helenos”, a identidade romana ainda era forte e presente.

A reinvindicação era legítima. Entre Constantino I e Constantino XI, o último imperador bizantino, nunca houve um rompimento institucional ou de identidade. Os bizantinos chamavam seu estado de Império Romano ou mais frequentemente de Romania e a si próprios de romanos.

 

Mesmo depois da tomada de Constantinopla pelos otomanos em 1453 e do fim definitivo do Império, os falantes do grego de religião ortodoxa continuaram a se chamar de romanos. Somente com o surgimento do nacionalismo grego e os eventos traumáticos que marcaram os últimos anos do Império Otomano no século XIX que os romanos abandonaram essa identidade e passaram a se chamar de “helenos”, isto é, gregos.

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Mosaico no nartex de Santa Sofia retratando Constantino I doando Constantinopla a Virgem Maria, séc. X. (Fonte: Wikicommons)

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