• João Vicente

A "Espórtula de Cristo": a ponte entre o palácio imperial e as ruas de Constantinopla

Caros leitores,


Eu já mencionei em outro post que é difícil ter informações sobre os bizantinos que não eram parte da elite letrada ou da elite política, isto é, a maioria deles. Isso vale também para a capital do Império: Constantinopla.


É impressionante como sabemos pouco sobre a estrutura urbana e a vida dos habitantes da maior cidade medieval. A pesquisa arqueológica é dificultada porque a metrópole de Istanbul está localizada acima das camadas bizantinas, e as fontes escritas se interessavam pouco pelo dia-a-dia da cidade além dos muros do palácio imperial e da basílica de Santa Sofia.


De vez em quando, as fontes nos dão pedaços de informação sobre a vida dos bizantinos menos afortunados. Obviamente, a intenção de seus autores não era valorizá-los ou destacá-los, pois aqueles tinham comumente um desprezo elitista ao povo miúdo. A “multidão” – a plethos − podia ser perfeitamente ignorada, a não ser que se tornasse fonte de problemas ou um recurso retórico útil. O post de hoje trata do último caso.


Combate no Hipódromo de Constantinopla na época de Nicéforo II Focas (963-969). Ilustração no manuscrito Skylitzes Matrilensis (sec. XII)


Abaixo temos a tradução do grego de um pequeno trecho da obra História por Miguel Ataliates. Esse autor viveu entre 1020 e 1080. Sua origem era provavelmente provincial da cidade de Antália, atual Antalya na Turquia (daí o sobrenome "Ataliates"), mas ele se mudou para Constantinopla para estudar e iniciar uma bem sucedida carreira como juiz.


Embora fosse parte de uma pequena minoria de bizantinos que tinham acesso à educação superior, Ataliates era um provinciano e, por isso, teve que galgar degrau por degrau na hierarquia da burocracia bizantina, conseguindo chegar aos postos mais altos. Ele foi nomeado juiz do Hipódromo e do Vellum, a última corte de apelação da justiça bizantina, algo semelhante a um ministro do Superior Tribunal Federal mas com o imperador acima dele, e recebeu o título senatorial de proedros. Sua carreira como funcionário imperial também permitiu que Ataliates amealhasse uma pequena fortuna, investida principalmente na cidade de Redestos (atual Tekirdağ na Turquia).


Além de sua evidente competência como jurista, o sucesso profissional de Ataliates deve-se também a suas movimentações políticas. A evidência disso são os éditos imperiais, chrysobouloi logoi, emitidos por Miguel VII Ducas (1071-1078) e Nicéforo III Botaneiates (1078-1081), protegendo suas propriedades de obrigações fiscais. Tais privilégios eram dados para poucos e simbolizam a posição privilegiada de Ataliates na corte durante o reinado desses dois imperadores.


Além das redes de contato, Ataliates utilizou sua educação para buscar o favor dos imperadores. Ele escreveu um tratado jurídico – Ponema Nomikon ou “Trabalhos Jurídicos” − dedicado ao imperador Miguel VII e escreveu a História dedicando-a ao imperador Nicéforo III. Embora seja uma obra que siga os preceitos historiográficos bizantinos, ela é bastante elogiosa a esse imperador. Ela se torna um panegírico, exaltação retórica, no relato sobre o reinado de Nicéforo.


Entre os muitos benefícios trazidos por esse imperador, um deles teria sido o enriquecimento geral de todos, incluindo dos mais miseráveis, que é relatado da seguinte forma por Ataliates:


Os vagabundos e pobres da cidade imperial, os que circulam e se escondem junto às partes cobertas das avenidas, que são chamadas de pórticos, mantendo-se na forma de parasitas e aduladores, ou para dizer mais verdadeiramente, mendigos, tinham o hábito de ir às casas daqueles que haviam sido honrados [pelo imperador] e, em grande agradecimento, divulgar o favor do imperador e as evidentes e muito felizes honrarias; e estes de pobres se tornaram ricos e de necessitados prósperos com a continuidade e o grande número dos que foram honrados, recebendo daqueles grande quantidade de ouro a cada [ocasião]. De certo, era a largueza de todos os afortunados como se a partir de uma doação pública, que os que falam espirituosamente chamam de “espórtula de Cristo”, as benfeitorias avançavam em massas incontáveis, e estes se cansavam de percorrer por todos os lados d’A Cidade e recebê-las, mesmo se era lucrativa a causa da visita por todos [os lugares], pois o excesso de esforços convence mesmo os exaustos a desprezar os ganhos.


Οἱ ἀργοὶ καὶ πένητες τῆς βασιλευούσης, οἱ ταῖς ἐπισκεπέσι τῶν λεωφόρων, αἵπερ ἔμβολοι λέγονται, περινοστοῦντες καὶ ἐμφωλεύοντες καὶ παρασίτων τάξιν ἢ κολάκων ἢ τό γε ἀληθέστερον εἰπεῖν, προσαιτῶν ἐπέχοντες, συνήθως ἔχοντες ταῖς οἰκίαις τῶν τιμωμένων ἐπιφοιτᾶν καὶ προφημίζειν ἐν εὐχαριστίᾳ μεγαλουργῷ τὴν βασιλέως χάριν καὶ τὸ τῆς τιμήσεως ἐπιφανὲς καὶ περίολβον, καὶ αὐτοὶ ἐκ πενήτων γεγόνασι πλούσιοι καὶ εὔποροι ἐξ ἀπόρων τῇ συνεχείᾳ καὶ τῷ πολυαρίθμῳ τῶν τιμωμένων, ἁδρὰν καθἑκάστην χρυσίου ποσότητα παρὰ τούτων ἐκκομιζόμενοι. Γίνεται γὰρ ἡ δόσις παρὰ πάντων τῶν εὐδαιμονούντων ὡς ἐξ ἐράνου, ἣν καὶ συνήθειαν τοῦ Χριστοῦ ἀστεϊζόμενοι λέγουσι, προϊούσης δὲ τῆς εὐεργεσίας εἰς ἀναρίθμητον στῖφος, καὶ πρὸς τὸ πανταχόθεν περιτρέχειν τῆς Πόλεως καὶ λαμβάνειν καὶ οὗτοι ἀπέκαμον, κἂν ἐπικερδὴς ἦν ἡ αἰτία τῆς διὰ πάντων ἐπιφοιτήσεως, ἡ γὰρ ἀμετρία τῶν πόνων πείθει καὶ κέρδους τοὺς οὕτω κεκμηκότας περιφρονεῖν.


MIGUEL ATALIATES, Historia. ed. PÉREZ MARTÍN, Inmaculada. Madrid: Consejo superior de investigaciones científicas, 2002. P. 198


Há diversos relatos nas fontes sobre as cerimônias nas quais os imperadores distribuíam presentes aos portadores de títulos e cargos oficiais, mas aqui temos um relato de como essas cerimonias impactavam a vida cotidiana da massa anônima que vivia na capital.



Manuscrito Coislin 79 com as homilas de São João Crisóstomo, folio 2 recto. O imperador Nicéforo III e ou possivelmente Miguel VII sentado em seu trono entre quatro dignitários cortesãos (da esquerda para direita: o proedros e epi tou kanikleiou, protoproedros e protovestiarios, o imperador, o proedros e dekanos, e o proedros e megas primikerios) e flanqueado por duas personificações da Verdade (Aletheia) e Justiça (Dikaiosyne). (Fonte: Wikimedia)


Ataliates demonstra que havia uma expectativa geral de que a filantropia imperial fluísse para grupos mais amplos do que a elite portadora de títulos. Os representantes mais pobres de Constantinopla já esperavam receber uma parte dos presentes dados pelos imperadores, possivelmente em cerimônias privadas nas casas desses aristocratas, que deviam replicar, mas em menor escala, as cerimônias imperiais.


É importante dizer que a intenção do autor não era dar informações sobre os “vagabundos e pobres” de Constantinopla, mas exaltar a filantropia do imperador Nicéforo. Então, devemos ter cuidado ao analisar esse trecho e não tratá-lo como um relato puramente histórico. Ainda assim, mesmo deixando de lado exageros sobre o enriquecimento geral, e dos pobres se cansando de ir à casa dos ricos em busca de ouro, é possível ler nele um relato de uma prática social estabelecida mesmo antes do reinado de Nicéforo III.


Ele não somente nos abre uma pequena fresta para observarmos o rico quotidiano de Constantinopla do século XI, mas também as estruturas sociais sobre as quais a autoridade imperial se sustentava, pois as aclamações imperiais por parte dos beneficiados era parte importante do ritual. Logo, temos uma clara evidência que o cerimonial imperial, muitas vezes considerado ossificado e descolado da realidade, estava profundamente imbricado com o cotidiano de Constantinopla.

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