• João Vicente

A cidade bizantina: da polis clássica ao kastron medieval

Artigo originalmente publicado em inglês na Medieval Magazine, número 110.


Um dos aspectos mais importantes da Idade Media é a transferência dos centros de poder das cidades para as áreas rurais.


Quando as instituições econômicas e políticas do Império Romano entraram em crise, as condições para existência de grandes cidades foram interrompidas. Como consequência, as cidades romanas encolheram ou desapareceram no Ocidente. Porém, a situação foi diferente no Oriente, onde as províncias eram significativamente mais ricas e mais urbanizadas. Além do mais, depois da sua divisão em 395 d.C, a parte oriental do Império Romano foi menos afetada por invasões, por isso suas cidades continuaram a prosperar.


O Império Bizantino se orgulhava da última metrópole sobrevivente no mundo cristão: Constantinopla. Mesmo assim, ela ainda precisou de tempo para consolidar sua posição como cidade imperial. Mesmo depois que a antiga cidade de Bizâncio tinha sido refundada por Constantino I em 330, Constantinopla não era inicialmente a única grande cidade do Império Bizantino, pois cidades como Alexandria, Antioquia e Tessalônica eram também centros econômicos, religiosos e culturais importantes.


O cenário mudou no século VII quando invasões muçulmanas e eslavas resultaram em perda massiva de território pelos bizantinos e, consequentemente, de todas as outras cidades importantes, com exceção de Tessalônica. Nesse período, Constantinopla finalmente atingiu seu status de cidade imperial sem competição. Embora o tamanho de sua população e a manutenção de seus monumentos, igrejas e edifícios públicos, assim como suas estruturas sociais, tenham variado consideravelmente no milênio no qual Constantinopla foi a capital bizantina, a Cidade de Constantino manteve sua posição como a única metrópole e capital imperial por todo período.


Reconstituição gráfica de Constantinopla no século XIII (Fonte: Antoine Helbert)


O mundo provincial bizantino também teve uma forte vida urbana no período tardo-antigo. Além dos grandes centros urbanos romanos acima mencionados como Alexandria, Antioquia e Tessalônica, as províncias orientais gozavam de uma pujante rede de cidades e rotas comerciais para sustentá-las. Atenas, Corinto, Niceia, Esmirna, Jerusalém e Éfeso eram cidades de tamanho médio, como também centros educacionais e eclesiásticos.


Berytus (atual Beirute, no Líbano) era referência em estudos jurídicos. Estudantes vindos de todas as partes do Império iam para lá para estudar a Lei Romana. Atenas abrigava a Academia Platônica, fechada por Justiniano I em 529. Devido ao seu papel na vida e morte de Jesus Cristo, Jerusalém, uma cidade de pouca importância em períodos anteriores, se torna um importante centro religioso e sede de um dos patriarcados junto de Roma, Antioquia, Alexandria e, mais tarde, Constantinopla.


Representação de Jerusalém no chamado Mapa de Madaba. Esse mosaico do século VI e localizado na igreja de São Jorge em Madaba, Jordânia, retrata a área entre o Líbano e o delta do Nilo. Jerusalém é aqui retratada como uma típica cidade romana do período tardo-antigo com muralhas e avenidas ladeadas por colunatas. (fonte: Wikipédia)


As cidades do Império Romano no período tardo-antigo eram governadas por elites locais, os curiales, que eram ainda influentes e ricas o suficiente para construir palácios luxuosos e financiar a manutenção e construção de prédios públicos como igrejas, banhos, teatros e aquedutos.


Instabilidades políticas e invasões estrangeiras a partir do final do século VI resultaram no final dessa vibrante vida urbana provincial. Os habitantes abandonaram as cidades ou morreram em consequência de pragas e guerras. Os sobreviventes procuraram segurança nas cidades altas (akropolis). Assim, os conceitos de cidade e fortaleza se confundiram em Bizâncio, sendo ambos descritos usando a mesma palavra (kastron). A palavra grega para “cidade” (polis) era somente usada para Constantinopla. A aristocracia local desapareceu das fontes, pois as lideranças urbanas nesse período passaram a ser o bispo local ou o governante militar (strategos) enviado de Constantinopla.


No “período das trevas” bizantino (do século VII ao IX), cidades eram simplesmente centros administrativos dos quais a igreja local era administrada, impostos eram coletados e a defesa organizada. Éfeso é um exemplo perfeito dessa decadência urbana. A capital romana da Anatólia Ocidental era uma cidade extensa e opulenta que manteve seu status até o final do século VI, quando Justiniano construiu uma basílica imponente lá. Porém, a crise que se seguiu e o assoreamento do seu porto foram golpes duros, deixando a Éfeso bizantina limitada a sua fortaleza construída ao lado da basílica.


Castelo perto de Éfeso, chamado pelos bizantinos de “Santo Teólogo (Ho Hagios Theologos)” devido à proximidade com a Basílica de São João. (Fonte: Wikipedia)


No século IX, é possível notar os primeiros sinais de recuperação econômica, que acelerou nos séculos seguintes. Uma evidência para esse desenvolvimento é a renovação da vida urbana nas províncias. Os habitantes passaram a ocupar as cidades baixas (emporion) novamente, e novas muralhas são construídas. Ainda assim, a cidade bizantina era bem diferente de sua contraparte tardo-antiga. Ao invés de avenidas amplas, quarteirões quadrados, forae espaçosos e edifícios públicos monumentais, o espaço urbano consistia de ruas estreitas, casas pequenas e igrejas construídas em modestos planos quadrados.


Monemvasia (“entrada única” em grego) é um exemplo, que pode ser visitado hoje, de uma típica cidade medieval bizantina. Monemvasia é dividida entre uma cidade baixa cercada de muralhas para qual existe um acesso único desde o continente através de uma passagem de terra e a cidade alta suspensa de penhascos altos e inacessíveis. Inicialmente um porto seguro para a população local na época das invasões eslavas (séculos VI-VIII), Monemvasia tornou-se um importante centro econômico e militar.


Monemvasia vista do mar (fonte: Wikipedia)


Acesso a cidade alta (akropolis) de Monemvasia (fonte: Wikipedia)


Mais uma vez, podemos perceber a ascensão de elites locais: os archontes. No início, a influência deles foi ofuscada pelos imperadores e seus representantes, mas os archontes locais tornaram-se mais autônomos e influentes na medida em que o poder imperial enfraquecia. Dessa maneira, a decadência política do Império Bizantino a partir do século XIII não significou a decadência das cidades bizantinas.


Quando cidades são conquistas por autoridades francas ou italianas, elas eram integradas ao crescente comércio no Mediterrâneo, que lhes trazia não somente prosperidade, mas também resultavam no surgimento de uma identidade própria.


Mistras na região da Moreia, no Peloponeso, é um desses lugares. Construída por Guilherme II de Villehardoin, um governante franco, em 1242, Mistras foi posteriormente capturada pelos bizantinos que a transformaram num domínio semiautônomo controlado por um governante, o déspota da Moreia, que era necessariamente um membro da casa imperial. Mistras tornou-se o centro da arte e ciência nos últimos anos de Bizâncio.


As ruínas de Mistras (fonte: Wikipedia)


A Peste Negra a partir de 1348 não poupou cidades bizantinas e resultou num rompimento do desenvolvimento urbano observado nos séculos anteriores. Outro fator que afetou as cidades bizantinas e anteriormente bizantinas no século XIV foi o cenário politico internacional. A Quarta Cruzada introduziu algumas das cidades conquistas ao comércio internacional, mas uma das consequências a longo prazo foi também a fragmentação política e estado de guerra constante nos Balcãs e na Anatólia. Isso impediu o desenvolvimento urbano até uma nova rede de cidades for a estabelecida uma vez mais pelos otomanos.

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