• João Vicente

“Apagando o passado cristão”, um artigo da The Economist

Atualizado: Abr 25

A Turquia passa atualmente por um momento bastante conturbado. A república laicista fundada por Kemal Ataturk está sendo constantemente contestada pelo governo de tendências cada dia mais religiosas de Tayyip Erdogan e seu Partido Justiça e Desenvolvimento. Leis mais duras com relação ao consumo de alcool e vestimenta feminina estão sendo criadas, resultando nos protestos observados nos últimos meses, cujos participantes são em maioria uma classe média urbana já bastante ocidentalizada.


O artigo da The Economist revela uma faceta dessa nova tendência: a transformação de igrejas bizantinas em mesquitas. Era comum, na Idade Média, após a conquista de uma cidade islâmica por cristãos, a transformação de mesquitas em igrejas e vice-e-versa. Dois grandes exemplos disso são a Catedral de Córdoba, que, até 1236, era uma mesquita, mas, após a conquista cristã emprendida pelo rei Fernando III de Castela, foi transformada em igreja e a Basilica de Santa Sofia, construída por Justiniano I (527-565) e transformada em mesquita após a conquista otomana em 1453.


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Igreja-Mesquita de Cordoba (Fonte: Wikicomons)


Após a fundação da República Turca, muitas dessas igrejas, incluíndo Hagia Sofia, passaram a ser transformadas e tratadas como museus. Porém, com a crescente islamização da Turquia, algumas igrejas, que haviam se tornado museus, passaram a ser novamente utilizadas como mesquita. Primeiro foi a Hagia Sofia de Iznik (Nicéia) e agora a de Trabzon (Trebizonda).  Sobre essa última retransformação que o artigo da The Economista trata.


Clique aqui para ler o texto original em inglês.


 Apagando o passado cristão


NO DIA 5 de Julho, o Mufti de Trabzon se reuniu com outros cidadãos para as primeiras orações de sexta-feira do mês sagrado de jejum do Ramadã, não em uma mesquita, mas em uma antiga igreja bizantina. A reunião foi uma reencenação simbólica da conquista em 1462 desse antigo porto grego no Mar Negro por Maomé II, o sultão otomano que tirou Constantinopla dos bizantinos em 1453. Ele marcou sua vitória convertendo a Catedral de Haghia Sophia  da atual Istambul em uma mesquita.


A irmã de Haghia Sophia do mesmo nome em Trabzon é menos grandiosa. Ainda assim, com seus afrescos deslumbrantes e posicionamento magnífico com vista para o mar, o edifício do século XIII é considerado como um dos melhores exemplos de arquitetura bizantina. Assim como outros monumentos cristãos, a Haghia Sophia em Trabzon se tornoum símbolo na batalha entre secularistas e islâmicos. Ela foi convertida em uma mesquita por volta do século XVI e, depois de outras encarnações, se tornou um museu em 1964. Mas os islâmicos venceram o último round em 2012 quando uma corte local aceitou a reivindicação da Diretoria Geral das Fundações Pias, o orgão governamental responsável pelas mesquitas históricas da Turquia, que afirmava que a Haghia Sophia faz parte da fundação de Maomé II e estava sendo “ocupada ilegalmente” pelo Ministério da Cultura.


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Haghia Sophia em Trabzon (Fonte: Wikicommons)


A discussão provocou um medo surpreendente numa cidade notória por suas visões ultra-nacionalistas. “Trata-se de apagar o passado cristão, revivendo o Otomanismo”, afirma um historiador local. “Há mesquitas suficientes em Trabzon, metade delas está vazia, qual a necessidade?”  concorda Zeki Bakar, um conselheiro da vizinhança. Um processo foi aberto para desfazer a conversão.


Mesmo assim, o governo moderadamente islâmico do partido Justiça e Desenvolvimento (AK) realizou a conversão em tempo para o Ramadã. O tapete vermelho agora esconde os belos mosaicos do chão. Persianas e tendas atrás do domo central protege os fiéis muçulmanos das pinturas “pecaminosas” da Santíssima Trindade. Torneiras de aço brilhante com banquinhos de plástico para abluções obstruem um jardim outrora verdejante e cheio de esculturas antigas.

Mazhar Yildirimhan do escritório Diretoria de Fundações Pías em Trabzon não se importa com as reclamações dizendo que é propaganda. Mas para especialistas a conversão é trágica, e vai resultar inevitávelmente na danificação do edifício. “Parece seguir de perto aquela (conversão) da Haghia Sophia em Iznik”, avisa Antony Eastmond do Instituto de Arte de Courtauld, referindo-se a outra conversão.


Tudo isso está promovento a ansiedade de que a Haghia Sophia em Istanbul “será a próxima”. Esses medos são exagerados. O trabalho de restauração na famosa basílica tem sido realizado durante uma década de regime AK e Recep Tayyip Erdoga, o primeiro-ministro, rejeitou as preocupações sobre seu destino. Ainda assim, o senhor Yildirimhan não faz segredos quanto ao seu desejo de conversão, a qual ele diz é compartilhada com seus colegas islâmicos. “Ela foi feita pelo sultão”, ele diz. “Nós temos todos os registros”



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