• João Vicente

Bizâncio tinha universidades?

Os estudos bizantinos como campo de conhecimento é um produto ocidental que estuda um objeto não-ocidental. Uma das consequências disso é busca de contrapartes de fenômenos observados no ocidente medieval em Bizâncio. Como se o Império Bizantino fosse um análogo orientalizado da Ocidente Medieval (o mesmo se repete no estudo de outras sociedade quando fala-se, por exemplo, do “Japão Feudal”). Nesse esforço, surgem conceitos como “Feudalismo Bizantino” ou “Césaropapismo”. Eles são estranhos à sociedade romana medieval, pois se mostram errados e fora de lugar numa análise mais detalhada.


Hoje falaremos sobre uma dessas buscas de análogos bizantinos de fenômenos históricos ocidentais: a “Universidade” de Constantinopla.


A universidade foi um dos principais legados que a Idade Média. A primeira a surgir foi em Bolonha, em 1088. Muitas outras foram fundadas por cidades europeias por toda a Idade Média em períodos posteriores. Seu modelo é a corporação de ofícios medieval, que regulava como e por quem determinadas atividades econômicas deviam ser realizadas. Consequentemente, a característica principal da universidade medieval era a autonomia jurídica e identidade corporativa. Porém, vemos algo semelhante acontecendo no Império Bizantino?


Antes é necessário analisar como funcionava a educação superior em Bizâncio.


O ingresso de estudante na Natio Germanica Bononiae, o colégio de estudantes alemães em Bolonha. Miniatura de 1497. (Fonte: Wikicommons)


Desde os períodos mais iniciais da história bizantina, o chamado período tardo-antigo que vai do século III ao VII, a função da educação superior era a formação de quadros para o funcionalismo imperial e, após a cristianização do Império, cargos eclesiásticos. O Estado precisava de pessoas capazes de interpretar leis, além de ler e escrever documentos oficiais, e a Igreja tinha necessidade de bispos e arcebispos capazes de entender os cânones cristãos e ensinar a ortodoxia. Logo, as principais “matérias” da educação bizantina eram retórica, oratória, filosofia e teologia.


Embora fosse de interesse das duas principais instituições bizantinas ter a disposição pessoas bem preparadas, elas pouco fizeram para formar os próprios quadros. A educação era deixada, na maior parte do tempo, na responsabilidade de professores particulares. De tempos em tempos, imperadores manifestavam sua preocupação com a baixa qualidade da educação dos jovens funcionários imperiais e do clero, e pensavam em medidas para melhorá-la.


O primeiro foi Teodósio II que criou em 425 uma escola superior com 31 cadeiras que ensinava retórica e oratória em grego e latim. Depois de um século, perdemos registro dessa instituição. A próxima iniciativa aconteceu quase quatrocentos anos depois, durante o reinado de Miguel III (842-867), quando o tio do imperador, o caesar Bardas, instituiu a escola de Magnaura, nomeando para sua direção Leão, o Matemático, o mais renomado erudito de sua época. Essa escola passou por uma renovação durante o reinado de Constantino VII Porfirogênito (913-959), um imperador muito dedicado aos estudos e a produção letrada. Assim como a iniciativa de Teodósio II, essa instituição rapidamente desapareceu das fontes.



Alunos e os filósofos. Manuscrito Matrilensis da Cronica Scilitzes (seculo XII)


O século seguinte, o XI, foi um período de grande agitação cultural em Bizâncio. São escritas um grande número de obras filosóficas e literárias nessa época por autores como Miguel Pselo, João Mauropous e Constantino Licoudes. No entanto, a formação desses e de toda elite letrada dessa geração se deu através de instrutores e escolas particulares. Uma intervenção imperial sobre a educação superior aconteceu somente na metade desse século, quando Constantino IX Monomaco (1042-1055) fundou a Escola de Mangana, uma instituição de ensino jurídico, posta sob a direção de Constantino Licoudes, que recebeu o título de nomophylax ou “guardião das leis”. Na mesma época, Miguel Pselo recebeu o título de hypatos ton filosofon ou “cônsul dos filósofos”. Já foi proposto que esse título daria a Pselo algum tipo de autoridade sobre os professores de filosofia em Constantinopla, mas o mais provável é que era honorífico, reconhecendo a eminência de Pselo entre seus contemporâneos e garantindo-lhe também uma renda que correspondia sua fama e posição na corte. Assim como no caso da Escola de Magnaura, a de Mangana desapareceu das fontes após a morte de seu fundador


A próxima iniciativa imperial para a melhora da qualidade da educação superior foi a chamada Escola Patriarcal, fundada ou reestabelecida por Aleixo I Comneno (1081-1118) em 1107. Diferentemente das outras iniciativas imperiais anteriores que almejavam melhorar a educação dos funcionários imperiais civis, a escola patriarcal tinha como objetivo formar quadros para a Igreja. Ainda assim, figuras de destaques nos campos literários não-religiosos foram professores nessa instituição como Teofilato de Ohrid, Teodoro Prodromo e Eustácio de Tessalônica. A ambição dos alunos da Escola Patriarcal era serem nomeados para um bispado ou arcebispado, embora o prêmio mais almejado fosse o Patriarcado de Constantinopla. Enquanto esperavam por nomeações eclesiásticas e como parte de sua estratégia de autopromoção, esses letrados buscavam patrocínio de poderosos e membros da família imperial, dedicando obras a eles ou compondo trabalhos por eles encomendados. As Escola Patriarcal continua existindo até 1204, quando Constantinopla é invadida, saqueada e tomada pela Quarta Cruzada.


O período posterior, de exílio em Nicéia e a restauração de 1258, quando Constantinopla retorna às mãos bizantinas, até a conquista otomana em 1453, não conheceu outra iniciativa imperial no campo da educação. A produção literária bizantina desse período tardio é rica, mas a educação dos autores continuou sendo privada. A qualidade e a reputação da instrução bizantina era ainda alta, pois atraía alunos de fora do Império, principalmente da Itália. Da mesma forma, eruditos bizantinos são convidados a migrar para Itália para viver, produzir e ensinar sob a proteção de príncipes italianos. Esse movimento foi chave para o que chamamos hoje de Renascença.



Demétrio Calcocondiles (1423 - 1511), escritor e gramático bizantino que ensinou em diversas universidades italianas e exerceu grande influencia sobre a Renascença. Esse retrato é parte de um afresco na Santa Maria Novella, em Florença (Fonte: Wikicommons)


Retornando a pergunta que deu início a esse artigo: Houve uma Universidade de Constantinopla? A resposta definitiva é não.


Vimos acima que imperadores criaram instituições de educação superior por iniciativa própria, como reações a suas preocupações com a baixa qualidade dos funcionários imperiais e membros do clero, mas elas nunca tiveram ou mesmo aspiraram autonomia jurídica ou buscaram uma identidade corporativa características definidoras das universidades medievais.


Sendo iniciativas estreitamente ligadas a imperadores específicos, elas provavelmente eram vítimas das tradicionais oscilações políticas bizantinas. Quando um imperador morria ou era deposto, o sucessor descontinuava os projetos iniciados pelo antecessor ou mesmo perseguia aqueles que foram beneficiados por eles.


As escolas fundadas por imperadores mortos ou depostos deviam ser vistas com suspeita pelos soberanos seguintes. Sendo beneficiários do patrocínio do soberano anterior, tanto os alunos quanto os professores eram potencialmente percebidos como seus aliados e apoiadores. Dessa forma, não havia incentivo para que essas instituições continuassem a ser mantidas.


A Escola Patriarcal poderia ter se tornado uma exceção, pois era atrelada não ao imperador, mas ao Patriarcado de Constantinopla. Provavelmente essa foi a razão que explica sua existência contínua formando quadros por diversos governos durante o século XII e início do XIII. Com tempo, ela poderia ter obtido a autonomia jurídica e identidade corporativa análoga às universidades medievais se não fossem os eventos traumáticos da Quarta Cruzada.


Para saber mais:

Lemerle, Paul: Le gouvernement des philosophes": L'enseignement, les écoles, la culture”. In: IDEM, Cinq études sur le XIe siècle byzantin. Paris 1977, pp. 193-248.

Magdalino, Paul: The Reform Edict of 1107. In: Mullett, Margaret/ Smythe, Dion (ed.), Alexios I Komnenos. Papers of the Second Belfast Byzantine International Colloquium, 14–16 April 1989, (Belfast Byzantine Text and Translation 4.1), Belfast 1996, pp. 199–218.

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