• João Vicente

João Mauropous desiste de escrever uma história...

João Mauropous (ca.1000-1075/1080) foi um professor e retórico de corte sob Constantino IX Monomáco (1042-1055). Ele é mais conhecido por ter sido o líder de um grupo de letrados que se tornou influente no reinado daquele imperador.

Mauropous (“pés-negros” em grego) introduziu Constantino Licoudes e Miguel Pselo na corte imperial. O primeiro se tornou patriarca de Constantinopla e o segundo o intelectual mais destacado de sua era. Pselo foi também politicamente influente por diversos reinados nesse período conturbado.


O historiador Nicetas Coniates trabalhando em seu scriptorium, Miniatura de um manuscrito contendo sua obra feito em Constantinopla no século XIV, Biblioteca Nacional da Austria, Cod. Hist. gr. 53, fol. 1v (fonte: Wikimedia)


Mauropous acabou sendo eclipsado por seus pupilos, mas deve ser visto como o precursor de um movimento de ressurgimento literário sob o patrocínio imperial e aristocrático. Sua vasta obra inclui discursos, cartas e poemas epigráficos.


Hoje publico uma tradução feita por mim de um desses poemas no qual ele explica porque ele abandonou seu projeto de escrever uma história. Segundo o poema, seus amigos estavam o pressionando a incluir elogios a eles na sua obra. Ele não aceita isso, pois – segundo Mauropous – a escrita da História não é lugar de panegíricos.


Não temos registros da existência dessa obra além desse curto poema. Pode ser que ele nunca tenha de fato iniciado sua escrita, e intenção do poema era criticar seu pupilo, Miguel Pselo, que escreveu uma continuação de sua obra historiográfica, Cronografia, fazendo rasgados elogios aos imperadores Constantino X Ducas (1059-1068) e Miguel VII Ducas (1071-1078), seus patronos no final de sua carreira.


***


Quando [o autor] se afastou da escrita do historiador


O escritor não contou mentira alguma

De fato mentiria no resto de suas palavras

se os que ordenassem isso o tratassem tão amigavelmente

que eles se deleitariam do livro com panegíricos,

Igualmente [me] pareceu muito necessário dizer;

O poder dos aplausos, pois, não conhece saciedade.

Portanto essas coisas devem ser dispensadas junto ao encomio

A escrita [da História] não deve ser mais completada

Pois para a mentira não é adequada,

O costume da curva a afasta

Aqui a corrida por um tempo ele para,

Até que alguém dê a ela [a possibilidade de] correr em linha reta.



Ὅτε ἀπέστη τῆς συγγραφῆς τοῦ χρονογράφου


Ὁ συγγραφεὺς ψεῦδος μὲν οὐκ εἴρηκέ πω, (1)

ψεύσαιτο μέντ’ ἂν ἔν γε τοῖς λοιποῖς λόγοις,

οὕτω φιλούντων τῶν κελευόντων τάδε,

ὧν τοῖς ἐπαίνοις ἐντρυφῶν τὸ βιβλίον,

ὅμως ἔδοξεν ἐνδεέστερον λέγειν· (5)

ἐξουσία κρότων γὰρ οὐκ οἶδε[ν] κόρον.

οὐκοῦν ἀφείσθω ταῦτα τοῖς ἐγκωμίοις,

ἡ συγγραφὴ δὲ μὴ προχωρείτω πλέον·

οὐκ εὐφυῶς γὰρ πρὸς τὰ τοῦ ψεύδους ἔχει,

νόμος τε ταύτην ἐκ τροπῆς ἀποτρέπει

ἐνταῦθα τοίνυν τὸν δρόμον παύει τέως,

ἕως κατ’ εὐθὺ δῷ τις αὐτῇ τὸ τρέχειν.


Fonte: P. de Lagarde, Joannis Euchaitorum Metropolitae quae in codice Vaticano Graeco 676 supersunt [Abhandlungen der Historisch-Philologische Classe der Königlichen Gesellschaft der Wissenschaften zu Göttingen Bd. 28. Göttingen 1882 (repr. 1979)]: 1-51. Tirada de: http://stephanus.tlg.uci.edu/Iris/Cite?2709:004:88658

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