• João Vicente

O último discurso de Constantino XI Paleologo

Atualizado: Abr 25

Há um tipo de coragem que surge em momentos de desespero, quando não há outra opção senão resistir. Essa coragem surgiu em Constantinopla há exatos 561 anos atrás, no dia 29 de Maio de 1453, quando a cidade é cercada pelo exército otomano  composto de centenas de milhares soldados e liderado pelo jovem sultão Maomé II. Constantinopla era defendida por alguns milhares liderados pelo imperador Constantino XI Paleologo e por suas famosas muralhas. Era uma luta desequilibrada. O Império Otomano, que surgira há menos de dois séculos, e inicialmente era um entre vários emirados que se digladiavam na Anatólia, expande-se rapidamente e, nos anos que precedem 1453, já havia conquistado boa parte da Anatólia e dos Balcãs.


Maomé II o Conquistador

Maomé II o Conquistador


Já Bizâncio era quase como o negativo do Império Otomano: um império milenar que já havia sido o centro do mundo conhecido, a Oikomene, e cuja capital, Constantinopla, a nova Roma refundada por Constantino I, fora a maior cidade e mais rico bazar do mundo, além de um centro religioso que atraia peregrinos por causa de suas majestosas igrejas, repletas das relíquias mais sagradas do Cristianismo. No entanto, Bizâncio, nos últimos dois séculos, havia se fragmentado internamente em divisões políticas, sociais e religiosas. No alvorecer do século XV, o Império Bizantino não era mais um império, mas somente uma cidade, Constantinopla, ainda grandiosa, porém decadente, bem como um conjunto de alguns territórios na Grécia, que só ainda existia porque havia reconhecido a supremacia de facto do Sultão.


Essa independência condicionada tinha seus dias contados em 1453. O jovem Sultão Maomé II estava dedicado a conquistar Constantinopla. A nobreza otomana era extremamente militarista e exigia a liderança de um guerreiro vencedor. Logo, Maomé, por ser muito jovem e inexperiente, precisava se afirmar para assegurar o seu trono. Constantinopla era para esse jovem monarca uma questão de sobrevivência.


No outro lado, temos Constantino XI Paleologos, membro de uma dinastia que já reinava Bizâncio por mais de dois séculos. Figura carismática, culto e líder militar capaz, em outros tempos teria sido um daqueles imperadores cujo nome seria mencionado por aliados e inimigos com temor e reverência, mas, nos seus dias, a única coisa a fazer era tentar postergar o inevitável: a conquista turca. Por fim, não conseguiu.


Constantino IX Paleologo

Constantino XI Paleologo


Horas antes da cidade cair para os turcos e Constantino XI desaparecer lutando contra os invasores (o que resultou no surgimento de um mito sobre seu retorno), o imperador fez um discurso dirigido aos defensores da cidade e foi registrado pelo historiador Jorge Franzes. Transcrevo abaixo, uma tradução que fiz de uma tradução inglesa. (Não tive tempo de fazer uma do original grego, mas um dia prometo que farei).


“Senhores, ilustres capitães do exército, e nossos mais cristãos camaradas em armas: nós agora vemos a hora da batalha se aproximando. Eu escolhi então agora reunir vocês aqui para deixar claro que vocês devem permanecer juntos com uma determinação mais firme do que nunca. Vocês sempre lutaram gloriosamente contra os inimigos de Cristo. Agora a defesa de sua pátria e da cidade conhecida por todo mundo, a qual os turcos infiéis e cruéis tem cercado por quarenta e dois dias, é comprometida com seus elevados espíritos.


Não temam porque as suas muralhas se tornaram acostumadas com o bater dos inimigos. Já que a força de vocês jaz na proteção de Deus e vocês devem mostrar isso com o estremecer de suas armas e suas espadas brandidas contra os inimigos. Eu sei que essa multidão indisciplinada irá, como é de seu costume, se jogar sobre vocês como altos gritos e saraivada de flechas. Estes não irão lhes causar nenhum dano corporal, pois eu vejo que vocês estão bem cobertos com armaduras. Eles atacarão as muralhas, nossas couraças e nossos escudos. Então não imitem os romanos, os quais, quando os cartagianeses iam lutar contra eles, deixavam a cavalaria deles ser aterrorizada pela terrível visão e som dos elefantes.


Nessa batalha, vocês devem ficar firmes e não ter medo, não pensar em fugir, mas se inspirem para resistir com uma força ainda mais hercúlea. Animais podem fugir de animais. Mas vocês são homens, homens de corações bravos, e vocês vão manter esses brutos idiotas a distância, pressionando suas lanças e espadas contra eles, para que eles saibam que eles estão lutando não contra sua própria espécie, mas contra senhores de animais.


Vocês estão cientes que o inimigo infiel e ímpio perturbou a paz injustamente. Ele violou o juramento e o tratado que fez conosco, ele massacrou nossos fazendeiros na época de colheita, ele ergueu uma fortaleza no Propontis como se quisesse devorar os cristãos, ele cercou Galata pretendendo a paz.


Agora ele ameaça capturar a cidade de Constantino o Grande, a sua pátria, o lugar de refúgio para todos os cristãos, a guardiã de todos os gregos, e profanar seus santuários sagrados de Deus fazendo deles estábulos para os cavalos dele. Oh meus senhores, meus irmãos, meus filhos, a honra eterna dos cristãos está em suas mãos.


Vocês, homens de Genova, homens de coragem e famosos por suas vitórias sem fim, vocês que sempre protegeram essa cidade, sua mãe, em muitos conflitos contra os turcos, mostrem agora a coragem e espírito agressivo de vocês contra eles com vigor viril.


Vocês, homens de Veneza, os mais valentes heróis, cujas espadas fizeram muitas vezes sangue turco fluir e que em nosso tempo enviaram tantos navios, tantas almas infiéis para as profundezas sob o comando de Loredano, o excelentíssimo capitão de nossa frota, vocês que adornaram esta cidade como se fosse de vocês com bons e exelentes homens, levantem seus espíritos agora para batalhar.


Vocês, meus camaradas em armas, obedeçam os comandos de seus líderes sabendo que esse é o dia de sua glória – o dia em que, se vocês derramarem um só pingo do sangue de vocês, irão ganhar para vocês próprios a coroa do martírio e da fama eterna.”


O cerco de Constantinopla

O cerco de Constantinopla


Entre os defensores havia bizantinos, genoveses e italianos, católicos e ortodoxos, que durante séculos lutaram entre si, mas nesse momento dramático se uniram e mesmo realizaram uma última missa em Santa Sofia juntos. O historiador Steven Runciman afirma que, nesse momento e somente nele, enfim, houve uma união das Igrejas, que há muito era debatida e nunca concluída, mas que também terminou rapidamente, quando o sultão Maomé entra em triunfo em Constantinopla e consegue para si o eterno epíteto de “Fetih” ou “o Conquistador”.


Para saber mais:


Steven Runciman, 1453: A Conquista de Constantinopla



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